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Programa de Pós-Graduação em Tecnologia e Sociedade - PPGTE

Área de Concentração

 

O amadurecimento do Programa de Pós-Graduação em Tecnologia é fruto de um reiterado reforço da premissa de indissociabilidade entre Sociedade e Tecnologia, claramente assumida desde sua criação.

Neste contexto, a proposta deste projeto é parte de uma perspectiva de pesquisa que assume como pressuposto a noção de que a sociedade modela a ciência e a tecnologia e essas, por sua vez, modelam a sociedade e o ambiente, o que se reflete na formalização de uma área de concentração denominada Tecnologia e Sociedade.

Tecnologia é um termo polissêmico, seja devido aos inúmeros significados que variam de acordo com os diferentes grupos que a interpretam, ou aos diferentes valores que ele incorpora em seu uso concreto. Torna-se, portanto necessário explicitar os sentidos que lhe são atribuídos, e sua articulação em arcabouço coerente, quando se pensa em criar e desenvolver um Programa de Pós-Graduação com área de concentração em Tecnologia e Sociedade. Neste Programa, parte-se do pressuposto de que a compreensão da tecnologia exige abordagens teóricas e práticas mais amplas e profundas do que aquelas restritas a bens de consumo ou a conjuntos de técnicas atrelados apenas à operação de equipamentos, organização da maquinaria, ou administração de recursos humanos e direcionados exclusivamente à sua produção e aos ganhos econômicos imediatos.

Em arcabouços menos abrangentes, a visão instrumental da tecnologia se dá num caráter estritamente econômico, de curto prazo, sendo considerada o elemento que, se incorporado à produção, irá otimizá-la, aumentando a produtividade. É uma concepção de tecnologia preponderante no mundo dos negócios na atualidade, onde a competição é internacional e o desenvolvimento tecnológico representa o fator diferenciador de competitividade e de poder, possibilitando, a quem a detém, vencer as dificuldades do mercado, independentemente de outras mediações, presentes ou futuras.

O desenvolvimento tecnológico cada vez mais rápido e tem produzido mundialmente uma articulação crescente, entre o conhecimento científico e o tecnológico. Para muitos, tecnologia seria a aplicação de conhecimentos científicos, o que atribui papel primário à ciência e secundário à tecnologia. Para outros, a razão de ser da produção científica está na sua utilização para o desenvolvimento de tecnologias que garantam a riqueza material de uma nação.

Sem deixar de considerar a importância do conhecimento científico e do desenvolvimento tecnológico na contemporaneidade, propõe-se ampliar essa concepção para inserir outras dimensões que nem sempre são consideradas quando se interpreta o fenômeno tecnológico. Dessa forma adotamos o conceito de tecnologia de Ruy Gama da "tecnologia como ciência do trabalho produtivo", que permite a percepção do processo de sistematização científica presente nos processos tecnológicos, sem desconsiderar as suas dimensões políticas, econômicas e sociais.

O escopo proposto aqui para o termo tecnologia extrapola, portanto, a mera instrumentalidade que a vê direcionada apenas para o mercado, para considerá-la mais ampla e profundamente, levando em conta outras dimensões que estão, implícita ou explicitamente, presentes em sua produção, consumo, distribuição e descarte.

O determinismo tecnológico que considera a tecnologia como o elemento que direciona todas as manifestações da sociedade e condiciona a vida humana ao seu desenvolvimento é reducionista e não permite perceber a complexidade inerente aos fenômenos sociais.

Para dar conta da complexa amplitude que envolve a tecnologia é preciso concebê-la como uma realização humana que ocorre em situações sociais concretas e específicas. Qualquer atividade humana pressupõe a cultura como um ingrediente essencial de sua existência, de seu desenvolvimento. Faz parte da cultura o conhecimento tecnológico que implica técnicas que são socialmente produzidas e parcialmente compartilhadas. Assim, a tecnologia perpassa todas as formações sociais porque na produção das condições materiais de vida, necessárias a qualquer sociedade é imprescindível a criação, apropriação e manipulação de técnicas que carregam em si elementos culturais, políticos, religiosos e econômicos próprios da existência social.

Não se pode deixar de considerar a especificidade da sociedade em que vivemos com todas as suas manifestações múltiplas, plurais e desiguais. É nesse caleidoscópio social que a tecnologia, enquanto fenômeno humano, se manifesta, é produzida, é apropriada, atendendo a diversos interesses, muitas vezes contraditórios e ambíguos. No âmbito dessa diversidade a tecnologia é interpretada como socialmente construída.

Não é possível, portanto, pensar em vida social sem tecnologia, da mesma forma em que é impossível pensar em tecnologia sem sociedade, por mais independentes que esses fenômenos possam ser, equivocadamente, percebidos.

Princípios Constitutivos do Programa

Os Princípios Constitutivos integram o arcabouço conceitual que visa fortalecer as práticas integradoras e convergentes às três Linhas de Pesquisa: (a) Tecnologia e Trabalho e (b) Mediações e Cultura (c) Tecnologia e Desenvolvimento Sustentável. Portanto, os princípios não representam linhas de pesquisa, mas fornecem subsídios conceituais necessários a sua consolidação e integração, sendo transversais a estas, estruturadas em consonância com a área de concentração em Tecnologia e Sociedade.

Os seguintes princípios constitutivos perpassam e estruturam em diferentes graus e amplitudes as linhas de pesquisa do Programa:

Interdisciplinaridade: O PPGTE assume que a interdisciplinaridade se impõe como necessidade e como problema no plano material, históricocultural e epistemológico. Admite, pois, a concepção histórico-dialética da realidade onde a categoria da totalidade tenta recuperar toda a sua força e dimensão analítica. Trata-se, portanto, de um processo de aprendizagem social, em busca da teoria que se edifica de maneira globalizante. Assim, a interdisciplinaridade busca superar a racionalidade técnica e instrumental conduzida por visões tecnocráticas. A construção do saber, por esta concepção, passa pela experiência de vida, pela existência compartilhada que forma o novo racional do entendimento, abandonando determinações emanadas a priori.

Inserção Sócio-cultural: A tecnologia não constitui um sistema independente. Não se pode esquecer do elemento cultural que direciona os objetivos da técnica para diferentes usos de acordo com os interesses de quem a cria, explora e utiliza. A máquina por si só não tem exigências nem objetivos definidos, embora possa mediá-los. São os seres humanos que, de acordo com suas necessidades e motivações, estabelecem os objetivos para as técnicas, e traçam horizontes para o seu desenvolvimento. Assim, interpretada como um produto da inteligência humana e de seu esforço, a máquina é também um meio para entender a sociedade e para conhecermos a nós mesmos, pois o mundo da técnica não está isolado, nem é autônomo. A tecnologia transcende a dimensão puramente técnica e incorpora outros elementos da vida social, o que a torna um vetor de expressão da cultura das sociedades. A compreensão da tecnologia como uma dimensão sociocultural na qual ela é gestada, permite considerá-la como um elemento fundante da sociedade, mas não determinante. A tecnologia é parte da cultura e deve ser compreendida em sua interconexão com outros elementos culturais.

Evolução Histórica: O entendimento histórico conduz à compreensão integral da tecnologia e das razões econômicas e sociais que a efetivaram. É preciso desenvolver a percepção de que a dinâmica evolutiva da tecnologia emerge, sobretudo, do contexto sociocultural, não sendo determinada apenas pela economia. Dessa forma, há que se buscar o entendimento mais amplo e profundo da tecnologia não se limitando a uma percepção restrita às suas aplicações pontuais. Tal concepção encerra o estudo crítico da origem e desenvolvimento das técnicas e suas implicações para a vida profissional, conduzindo à busca de novas formas de educação científica e tecnológica e de atuação profissional ou comunitária face às evidências históricas dos processos de transformação da tecnologia.

Dimensão Econômico-Social: Nas modernas sociedades industriais, as formas de concorrência baseiam-se progressivamente nos processos de inovação, tanto tecnológicos como de gestão. Isto implica reconhecer que, do ponto de vista econômico, as análises baseadas nas antigas funções de produção tornam-se insuficientes, pois as capacidades competitivas repousam tanto no patrimônio físico das empresas quanto no conjunto de conhecimentos aplicáveis à produção. A mobilização bem sucedida desses conhecimentos, transformando-os em inovações valorizáveis para a sociedade, com o objetivo de garantir o desenvolvimento sustentável, poderá ocorrer especialmente através da criativa fusão entre os padrões educacionais gerais e os conhecimentos tecnológicos e científicos específicos, em uma relação direta com o contexto regional.

Postura Crítico-Reflexiva: A dimensão crítica estabelece a diferença na relação dos sujeitos com a objetividade, para favorecer a experiência do conhecimento comprometido com a realidade e com a sociedade. Representa uma meta ambiciosa, qual seja, a transformação da sociedade pela prática. O pensamento crítico é inovador e pretende estar presente na escola dando uma outra referência aos seus processos internos e de conhecimento, de forma a estabelecer um novo vínculo com as exigências da sociedade. O estabelecimento dessa perspectiva busca um saber que represente o esforço de mudar a tradição das estruturas básicas.

Referencial epistemológico e ético: Trata-se do esforço reflexivo voltado para a compreensão das questões epistemológicas e éticas que circundam os processos de construção e apropriação do conhecimento científico e tecnológico. Essas questões dizem respeito, de um modo geral, à validade do conhecimento, à objetividade científica e às implicações éticas sobre o uso e o desenvolvimento da tecnologia. A preocupação ética demanda abertura e disponibilidade para o trabalho interdisciplinar; explicita-se na construção da crítica ideológica e epistêmica do discurso científico-tecnológico; no compromisso com a construção da cidadania; no debate sobre a legitimação ética e a internalização dos valores.

Impacto sócio-ambiental: Face aos impactos antropogênicos decorrentes do uso intensivo da tecnologia, com a extração de recursos naturais renováveis e não-renováveis, a emissão de poluentes e a degradação extensiva do meio natural--impactos estes que também acentuam a exclusão social--, faz-se necessário refletir criticamente sobre a dimensão sócio-ambiental da tecnologia. Neste contexto, a relação entre tecnologia e sociedade assume vital importância para garantir o bem-estar das sociedades presentes e futuras. As posturas tecnocráticas conservadoras dessa relação devem passar por uma visão crítica e ética para que possam incorporar os princípios do desenvolvimento sustentável. Portanto, somente uma abordagem sistêmica e o trabalho interdisciplinar podem desenvolver formas alternativas de transformação tecnológica, onde os elementos norteadores da sustentabilidade induzem às tecnologias apropriadas, a conservação e recuperação do espaço habitado, do entorno urbano e do meio natural.

Linhas de Pesquisa do Programa

As linhas de pesquisa são Tecnologia e Trabalho, Mediações & Culturas Tecnologia e Desenvolvimento.

As linhas de pesquisa não são estanques. Internamente a cada linha, a existência de um projeto de pesquisa agregador de docentes e discentes, permite a interação entre os diversos projetos em desenvolvimento. Na relação entre as linhas, o compartilhamento de temáticas, projetos e perspectivas teóricas e metodológicas pelo corpo docente e discente, reafirma a interdisciplinaridade.

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