Astronomia

Publicado 7/9/2020, 12:16:35 PM, última modificação 11/3/2022, 5:39:08 PM
Durante observação do céu, integrante do GEAstro flagra a “Fuel Dump” do foguete chinês Long March 3B

Primeira imagem do objeto desconhecido. (Acervo Vinícius Ceccon)

Contemplar o céu noturno e observar as infinitas maravilhas como as estrelas, planetas e efemérides é, no mínimo, instigante e desafiador. A interpretação acerca desses fenômenos, é muito relativa a se considerar o grau de conhecimento que se possui e se pode observar, quer seja a olho nu ou com equipamentos mais específicos.

A prática da observação do céu noturno, realizada por estudantes e pesquisadores da área oportuniza, frequentemente, flagrar e capturar fenômenos inéditos e, no mínimo, intrigantes. Pode-se elencar nesse aspecto, muitas vezes meteoros, mais raramente OVNIs (Objetos Voadores Não-Identificados) com aparência e movimento incomuns.

Uma experiência dessa natureza, aconteceu na noite de 22 de junho, com o aluno concluinte do curso Técnico Integrado de Nível Médio em Agrimensura e integrante do Grupo de Estudos em Astronomia e Astronáutica (GEAstro), da UTFPR, Câmpus Pato Branco, Vinícius Ceccon, de 17 anos. Ele relatou que enquanto fazia uma sessão de Astrofotografia com alguns equipamentos (Figura1), no sítio da família, no município de Verê (PR), focando em uma região próxima ao plano da Via Láctea chamada de Complexo de Nuvens Rho Ophiuci, que envolve a estrela gigante Antares (Figura 2), por volta das 23h40min, ele percebeu um objeto pouco luminoso e relativamente grande ao Oeste, na direção da Constelação do Corvus (Figura 3).

Figura 1: Equipamento utilizado.  | Figura 2: Aglomerado de Nuvens Rho Ophiuci. | Figura 3: Primeira imagem do objeto desconhecido. (Acervo: Vinícius Ceccon)

A princípio, se configurava como um objeto incomum, comumente denominado OVNI. Contudo, Vinícius sabia que naquela região do céu não havia nenhuma nebulosa ou galáxia e seu conhecimento e interesse o levou a encontrar uma explicação científica para o que havia flagrado e registrado numa sequência de fotos que geraram o timelapse abaixo (Animação 1).

Prontamente, Vinícius encaminhou os registros aos demais integrantes do GEAstro, o qual é coordenado pela professora do departamento acadêmico de Física (DAFIS), do Câmpus Pato Branco, doutora Tina Andreolla. Enquanto o estudante realizava a análise das imagens identificando as estrelas e calculando as coordenadas celestes para o objeto, até então desconhecido, a coordenadora compartilhou os registros com os contatos da área para tentar identificar o objeto. Vinícius preparou um relatório científico de suas observações, contendo todas as informações do registro como equipamentos utilizados, horários, coordenadas do local e do objeto (Figura 4).

Figura 4: Imagem com posições anotadas. (Acervo Vinícius Ceccon)

De acordo com Vinícius, “foram diversas as características incomuns desse objeto. Sua velocidade angular era relativamente alta e seu tamanho angular era mais de duas vezes o tamanho da Lua Cheia, o que é raro de se observar em efemérides. Também, como era visível a olho nu, caracteriza-se como mais luminoso que o normal. O mais marcante, entretanto, era que a direção da “cauda” do objeto apontava para a mesma direção que o seu movimento”, informou.

Inicialmente, o estudante acreditava tratar-se de um cometa, mas as imagens e o relatório foram enviados pelo GEAstro a vários astrônomos e instituições da área. Com o auxílio de diversos colaboradores, como integrantes do GEDAL (Grupo de Estudo e Divulgação de Astronomia de Londrina), da BRAMON (Brazilian Meteor Observation Network, ou Rede Brasileira de Observação de Meteoros) e de Michael Thompson, especialista em Dinâmica Orbital e Astronáutica da Universidade de Purdue nos Estados Unidos, o mistério começou a ser solucionado.

O objeto era relacionado ao foguete Longa Marcha 3B, lançado do Xichang Satellite Launch Center, ou Centro de Lançamentos de Satélites de Xichang, localizado na província de Sichuan, no sudoeste da China, que levava o último satélite artificial da constelação BeiDou, que fornecerá serviços mundiais de GNSS. A denominação (Longa Marcha) é procedente da tradução para o português de LM-3B (Long March 3B). “É um foguete de três estágios com aproximadamente 55 metros de altura e pouco mais de 425 toneladas. Sua finalidade principal devido sua potência é colocar objetos em órbitas médias e geoestacionárias, além de já ter sido usado algumas vezes para colocar objetos em transição translunar”, informou Luzardo Junior, do GEDAL.

De acordo com Vinícius, “concluiu-se que a mancha registrada se tratava de uma porção de combustível ejetado pelo foguete chinês após a execução de uma manobra conhecida como "Fuel Dump", na qual um dos estágios do foguete libera o combustível líquido remanescente, evitando possíveis acidentes ou explosões em órbita”, destacou. Além desse detalhe, “a imagem faz parte de um grupo reduzido de capturas do fenômeno, devido a sua raridade e, é ainda mais interessante dado o fato de ter sido capturada na região Sul do Brasil, distante de qualquer estação de lançamento de foguetes”, declarou.

Entre os aspectos que norteiam a identificação de objetos como esse, para os pesquisadores e astrônomos, é o conhecimento do comportamento típico de um foguete fora da atmosfera. “Saber esses comportamentos e procedimentos adotados são fundamentais para identificar a classe do objeto. Inclusive a observação e estudo das "plumas" e trilhas deixadas pelos foguetes são importantes para detectar que algo não está bem ou até mesmo, economia de combustível”, informou Luzardo. “Conhecendo o tipo de objeto e com ciência do horário do avistamento, foi dado o primeiro passo na identificação. Saber os lançamentos ocorridos no globo naquele momento, foi o segundo passo para identificar e calcular a possível distância percorrida pelo lançamento realizado momentos antes, foi possível determinar especificamente qual veículo era e a missão que realizava”, destacou Luzardo.

Em relação à identificação, Marcelo Zurita, da BRAMON, relatou que “todos os objetos em órbita da Terra, sejam satélites ativos, inativos ou lixo espacial, são identificados e monitorados por organismos internacionais. A partir de observações feitas em observatórios especializados, são determinados os parâmetros orbitais de cada um desses objetos permitindo que seja possível calcular, com muita precisão, a localização deles em qualquer momento. No caso da mancha registrada em Verê, ela aparentava uma pluma de foguete. Logo, para confirmar, seria preciso encontrar um foguete em uma trajetória próxima àquela mancha naquele mesmo horário. Foi a partir dos parâmetros orbitais do foguete chinês, disponibilizados 4 horas depois das observações do Vinícius, que foi possível calcular sua trajetória e ver que ela era compatível com a mancha registrada em Verê. Resumidamente, o foguete estava viajando muito próximo daquela pluma no momento em que ela foi fotografada. E esses cálculos só foram possíveis porque, além de fotografar, o Vinícius também preparou um relatório científico de suas observações, contendo todas as informações do registro como equipamentos utilizados, horários, coordenadas do local e do objeto”, enfatizou.

A confirmação de que se tratava de um foguete se deu também pelo especialista em Dinâmica Orbital e Astronáutica, da Universidade de Purdue, nos Estados Unidos,  Michael Thompson, o qual confirmou a posição do foguete utilizando seus parâmetros orbitais, medidos quatro horas depois da observação de Vinícius, havendo disparidade de apenas 40 segundos entre as observações, explicada pela perda de energia que ocorreu nesse intervalo de tempo.

A experiência, poderia passar despercebida ou interpretada de forma equivocada caso fosse apenas um registro considerado amador. Nesse sentido, aliado ao ineditismo do registro, e por ter sido elucidado com tantas confirmações, vem ao encontro das premissas que norteiam o GEAstro. Para os pesquisadores do Grupo, este fato “vem consolidar os objetivos propostos pelo Grupo, como despertar o gosto pela Ciência, estimular que as pessoas olhem para o céu, bem como promover o desenvolvimento científico com seus integrantes. Consolida, também, a integração entre os grupos de divulgação de Astronomia e Astronáutica, mostrando que o compartilhamento de conhecimento em rede é favorável não só aos pesquisadores, mas também para a comunidade em geral”.

A coordenadora do GEAstro, professora Tina Andreola, considera a relevância do desenvolvimento e divulgação de estudos e pesquisas.“Destacamos que no momento em que vivemos, divulgar Ciência de maneira correta é fundamental e, esse feito mostra a importância da divulgação de Ciência pelos membros do grupo, uma vez que a divulgação científica se torna essencial para a comunidade num momento em que pseudociências ganham espaço nas redes sociais”, declarou.

Segundo Miguel Moreno, do GEDAL, a captura feita pelo Vinícius “demonstra que a sociedade deixou de 'olhar para o céu', haja vista que este intrigante fenômeno não foi reportado por mais ninguém. O cotidiano das cidades dissociou a relação entre 'Homem - Céu noturno'”, considerou.

O registro é considerado um grande feito na área, na análise de vários pesquisadores da área.Temos uma sociedade carente em divulgação científica e incentivo em formação de áreas científicas e correlatas. De repente você se depara com um jovem que observou nada menos o que ninguém tinha visto, é uma coisa de grande valor. A preocupação em registrar e analisar usando técnicas científicas coroaram esse excelente feito”, declarou Luzardo, da GEDAL.

Para os pesquisadores da BRAMON, Renato Cássio Poltronieri e Marcelo Zurita, a opinião é a mesma e destacam alguns outros aspectos. “Perfeitamente! Ainda que é raro isto ocorrer no nosso espaço Brasileiro devido as plataformas de lançamento ficarem bem distantes, no caso do Japão e China, dizendo a grosso modo estão em nossa reta, pois quando lançam a trajetória da Terra vai a nosso favor no hemisfério Sul”, disse Renato. Já Marcelo declarou que “Para um jovem de 17 anos, sem dúvidas. Pela perspicácia de fotografar aquilo que via e pelo trabalho de análise das imagens, preparando um relatório detalhado das suas observações. Na Astronomia, estamos acostumados a ver esse tipo de metodologia apenas entre os mais experientes. E mesmo entre observadores de satélites, que sabem com antecedência onde e quando poderiam ver algo assim, é difícil conseguir um registro como esse”, destacou Marcelo.

No entanto, na visão de Vinícius, o valor que atribui ao fato é outro. Para ele “a captura trata-se apenas do registro e confirmação de um fenômeno aeroespacial. Entretanto, é a posterior divulgação de caráter explicativo e científico que corrobora na desmistificação de fenômenos como esse, comumente correlacionados erroneamente a espaçonaves ou intervenções extraterrestres”, considerou.

As considerações dos pesquisadores relacionadas a flagrar ou capturar novamente fatos desse gênero na região Sudoeste são similares e apontam novas perspectivas. “Lançamentos de foguetes são frequentes e os avistamentos são bem comuns em órbitas baixas. Entretanto, nessa missão em questão as chances de se observar um objeto similar são bem reduzidas. Isso ocorre porque o tempo entre o lançamento do foguete e implantar o satélite é relativamente curto. Considerando também que as áreas inabitadas do planeta são maiores que as áreas habitadas e metade do globo encontra-se de dia, você teria que estar monitorando e pré calcular as posições dos foguetes para se colocar no lugar certo e hora certa, contar com bom tempo e pouca poluição luminosa além de estar com equipamento pronto para fazer o registro. Ou seja, o avistamento desse tipo de missão nesse momento específico é raro, mesmo com os lançamentos não sendo tão raros”, disse Luzardo Junior.

Para Renato, “não serão tão raras como eram. Muitas agências espaciais estão lançando cada vez mais foguetes, sondas, satélites para o espaço. China, Eua, Japão, Russia, França entre outros, então isto ocorrerá mais vezes e estamos atentos a isto. Nota que nos anos 70 e 80 eu sonhava em ver um futuro assim e hoje vibro a todo momento ao ver dia apos dia o avanço espacial”, declarou.

“Essa não foi a primeira e nem será a última vez que um fenômeno desse tipo é observado, mas as condições que permitiram sua visualização no Paraná foram muito específicas. O lançamento na China, o tipo de órbita em que o satélite seria colocado (geoestacionária) e o horário favorável, dificilmente ocorrerão novamente tão cedo. Entretanto, os lançamentos estão ficando cada vez mais comuns no mundo inteiro, então, provavelmente não deve demorar muito para que plumas como essa apareçam em outros locais do planeta. Torcemos apenas que elas encontrem olhos tão atentos e perspicazes como os do Vinícius”, considerou Marcelo.

“Embora o número de lançamentos de foguetes e satélites continue acontecendo em ritmo acelerado, a sua visualização ocorre majoritariamente próxima aos centros de lançamento, em países como EUA, Rússia e China. No Brasil, há a chance de próximos avistamentos como esse, todavia, continuarão raros”, concluiu Vinícius.

 O GEAstro

A atividade voltada a Astronomia na UTFPR iniciou em 1995, no antigo CEFET, com um grupo de servidores que se reuniam periodicamente para conversar e discutir temas voltados para a Astronomia, entretanto com cunho de curiosidade e não de pesquisa ou extensão e não era registrado e nem tinha um nome.

Em 1995, no ainda CEFET, os professores doutores Sergio Luiz Masutti e Luciara Indrusiak Weiss, encaminharam um projeto ao CNPq, foram selecionados e, com esses recursos, compraram os dois primeiros telescópios, dos cinco que têm-se atualmente e, desde então passaram a reunir um grupo de servidores para discutirem assuntos relacionados a Astronomia.

Em 2010, com a vinda da professora doutora Tina Andreolla, especialista na área, o grupo passou a ter atividades efetivas em Astronomia e ter atuação constante, sendo efetivado como grupo de pesquisa e extensão após o período de um ano e, a partir de então nominado como GEAstro - Grupo de Estudo, pesquisa, extensão e inovação em Astronomia, da UTFPR - Câmpus Pato Branco, e cadastrado no Diretório de Grupos de Pesquisas do CNPQ. O GEAstro foi fundado, então, em 2010, mas tem como vertente esse grupo de servidores que se reuniam para discutir Astronomia.

Sua concepção mantém o objetivo principal de desenvolver ações voltadas a Astronomia, Astronáutica e Ciências Espaciais, integrando a Universidade a comunidade acadêmica e externa, como as escolas públicas, privadas e outras instituições de Ensino Superior. Permitir que essas ações contribuam para elucidação e desmistificação de eventos não compreendidos de forma científica, junto ao público, no que se refere a assuntos relacionados a Astronomia bem como a promoção da integração da UTFPR com a comunidade que faz parte do raio de abrangência desta, e, também, a divulgação do nome da Instituição de forma direta e efetiva junto aos participantes e através deles, a toda comunidade externa.

A Astronomia é uma ciência gostosa de estudar e o GEastro visa levar esse conhecimento de forma divertida e agradável para um melhor aproveitamento. As atividades propostas são em forma de atividades práticas como oficinas e seções de observação e, também, atividades teóricas com o auxílio de vídeos e postagens de textos e notícias.

Como essa Ciência atualmente é muito baseada em senso comum e misticismo, o GEAstro abre as portas da Universidade para a população em geral, trazendo palestras de pesquisadores e outras pessoas de extrema importância para a Astronomia e seu desenvolvimento, o que torna possível o acesso a teorias recentes, avançando a fronteira do conhecimento.

O GEAstro, atualmente, é composto pela coordenação, três professores do Departamento Acadêmico de Física (DAFIS), da UTFPR, Câmpus Pato Branco, dois professores da Rede Estadual de Ensino e um professor de ensino superior de outra instituição. Integram o grupo, ainda, alunos dos diversos cursos ofertados pela UTFPR, alunos egressos e pessoas da comunidade em geral que gostam de Astronomia.

No momento, o GEAstro conta com 27 integrantes e tem reuniões semanais (agora online). Possui 4 alunos bolsistas e os demais são voluntários. Desenvolve 07 projetos de extensão e três projetos de pesquisa, projetos registrados nos Departamentos de Extensão e Pesquisa da UTFPR-PB. Conta com a parceria dos Núcleos regionais de Educação (NRE) de Pato Branco, Francisco Beltrão e Dois Vizinhos, pertencentes ao Estado do Paraná e da Delegacia Regional de Educação de São Lourenço do Oeste, pertencente ao Estado de Santa Catarina. Conta também, com a parceria das Secretarias Municipais de Educação dos municípios pertencentes a esses NREs, além de direções de instituições privadas de Educação Básica e dos Institutos Federais do Paraná instalados nos Municípios de Capanema e Coronel Vivida e as Secretaria de Ciência e Tecnologia e Inovação e , da Educação e Cultura, do Município de Pato Branco.

 Interessado(a) em participar do GEAstro?

No momento, o Grupo está se reunindo via vídeoconferência, todas as segundas-feiras, para reunião de planejamento das atividades e para seminários sobre temas voltados a assuntos de Astronomia, Astronáutica e Ciências Espaciais.

Qualquer pessoa que goste de Astronomia, Astronáutica e/ou Ciências Espaciais, independente de formação e idade, pode integrar o grupo. Para participar, há dois critérios: participar das reuniões e contribuir com as atividades desenvolvidas, mesmo que a distância. E, há diversas formas de contribuir, visto que atuando com atividades diversificadas dentro do tema e, conhecimento em todas as áreas é necessário, visto que a Astronomia é uma Ciência que permeia o cotidiano de todas as pessoas.

Saiba mais ou encaminhe suas dúvidas ou sugestões para o e-mail geastro-pb@utfpr.edu.br

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