PPGDP-CT
Sobre o PPGDP
O Programa de Pós-Graduação em Design Prospectivo (PPGDP) é uma unidade de pesquisa e formação em nível de pós-graduação da UTFPR, Campus Curitiba . Inaugurado em 2025, é o primeiro programa com concentração em Design Prospectivo no Brasil e talvez no mundo. Atualmente, o programa oferece um Curso de Mestrado em Design Prospectivo, cujas disciplinas podem ser cursadas por estudantes de fora da instituição. Além do Mestrado, o programa promove eventos e projetos de extensão.
Como todo Programa de Pós-Graduação vinculado à CAPES, o PPGDP está organizado em áreas de concentração (atualmente uma) e linhas de pesquisa (atualmente duas). Todas as pessoas docentes e discentes precisam estar vinculadas a uma linha de pesquisa no momento de ingresso no programa.
Identidade visual
O Programa de Pós-Graduação em Design Prospectivo possui uma identidade visual cambiante criada por diversos participantes em um processo de prospecção coletiva que buscou expressar as diversas qualidades relacionais cultivadas pelo programa. Clique na imagem para saber mais.
Área de Concentração
A área de concentração em Design Prospectivo se caracteriza pelo estudo das estruturas e suas qualidades relacionais para orientar projetos de transformação dos modos de ser e de viver. Nesta perspectiva, a prospecção consiste em: (1) reconhecer o trajeto histórico que formou a estrutura atual; (2) observar as qualidades relacionais que emergem desta estrutura como sintoma da necessidade de mudança; (3) projetar mudanças estruturais a partir das metaestruturas ou das infraestruturas, visando alcançar ou fortalecer qualidades relacionais desejáveis.
Nesta abordagem, a categoria estrutura se refere ao agrupamento de entidades e suas relações consolidadas ao longo do tempo. Alguns exemplos de estruturas são as formas de moradia, alimentação, educação, comunicação, produção de bens e criação artística. Em vez de se concentrar nas qualidades intrínsecas às entidades que compõem as estruturas, como por exemplo sua forma, eficiência, usabilidade ou durabilidade, o Design Prospectivo privilegia as qualidades das relações entre elas, que são por isso chamadas qualidades relacionais. Consideram-se qualidades relacionais a sustentabilidade, a equidade, a liberdade, a resiliência, a dialogicidade, a solidariedade e quaisquer outras que surjam das relações entre entidades.
Para projetar transformações, o Design Prospectivo intervém em pontos de alavancagem que formam as linhas de pesquisa do programa: as metaestruturas e as infraestruturas. Compreende-se por metaestruturas os aspectos ideológicos, estéticos, políticos e simbólicos que conferem significado, guiam a conformação e legitimam as estruturas. Já as infraestruturas dizem respeito aos aspectos organizacionais, operacionais, produtivos e instrumentais que dão sustentação e possibilitam a produção das estruturas. No Design Prospectivo, os projetos de transformação estrutural em direção às qualidades relacionais desejadas partem destes dois pólos, envolvendo tanto a prospecção de novas formas de imaginar e dar significado ao mundo por meio das metaestruturas, quanto novas formas de organizar e produzir essas realidades pelas infraestruturas.
Linhas de Pesquisa
Missão
A missão do Programa de Pós-Graduação em Design Prospectivo (PPGDP) e do seu Curso de Mestrado Acadêmico é: "formar mestres que possam contribuir com a prospecção de transformações nas estruturas que sustentam a vida, no âmbito local, regional, nacional e mundial, por meio da pesquisa, docência e prática profissional.”
Para realizá-la, o programa oferece atividades de ensino, pesquisa e extensão pautados em uma perspectiva projetual característica da área de Design. Espera-se com essa ênfase projetual, contribuir para consolidar a Pesquisa em Design no Brasil como uma área reconhecida pela sua produção de conhecimento relevante para outras áreas e a sociedade como um todo. Faz parte também da sua missão contribuir para a valorização das qualidades relacionais como princípio orientador na prospecção destas mudanças.
A partir desse perfil do egresso voltado para a pesquisa, docência e atuação profissional, completa a missão do PPGDP e do seu curso auxiliar que os mestres formados possam ocupar posições relevantes para sua atuação com Design Prospectivo. Entre elas, é missão formar egressos para atuar com a docência em cursos superiores em Design ou em outras áreas que tenham interesse em projetos de estruturas, design prospectivo e qualidades relacionais; atuar em posições de pesquisa científica em instituições públicas ou privadas; atuar em projetos de prospecção de transformações estruturais em empresas, no poder público ou no terceiro setor; assim como atuar em posições ligadas aos departamentos de responsabilidade sócio-ambiental destes.
Para que isso aconteça, a missão do PPGDP implica, também, na expansão da Pesquisa em Design para novos âmbitos, dialogando também com conhecimentos de disciplinas como Engenharias, Computação, Economia, Ecologia, Sociologia, Antropologia e outras áreas. Desta forma, a produção de conhecimentos projetuais é entendida não só como parte, mas como condição da produção de conhecimentos na contemporaneidade, partindo do pressuposto que projetar é enxergar, representar e analisar relações invisíveis, para depois manipulá-las como parte de estruturas.



Visão
O PPGDP tem como visão: “auxiliar na expansão e na consolidação do campo do Design Prospectivo em âmbito regional, nacional e internacional.” É a partir dessa visão que o Curso de Mestrado Acadêmico em Design Prospectivo objetiva a formação de egressos que possam auxiliar nessa expansão do campo por meio da pesquisa, docência e atuação profissional. Essa visão também acompanha o próprio crescimento da necessidade de abordagens de design mais abrangentes e interdisciplinares, que possam contribuir no enfrentamento dos problemas amplos e complexos das estruturas atuais.
O PPGDP tem como visão explorar o potencial de projetos prospectivos para identificar brechas, antecipar e viabilizar transformações nas mais diversas estruturas relacionadas à vida. O caráter de tais transformações estruturais, nesta abordagem, se define pela problematização e proposição de estratégias, artefatos, serviços ou sistemas capazes de interferir nas estruturas.
Nesta perspectiva, a estrutura é vista como uma rede de relações entre as entidades que a constituem, e que suportam uma série de ações. É condição para que ações aconteçam sobre qualquer estrutura a existência de atores que, interagindo entre si, as transformam. Por isso, entende-se que a configuração entre atores, estruturas e relações é o tripé sobre o qual se funda o projeto prospectivo.
A perspectiva de projeto prospectivo considera que as estruturas, além de serem ponto de partida para a ação humana, também são resultantes de uma série de projetos humanos anteriores, os chamados trajetos. Incompatibilidades, incongruências, desarticulações e contradições entre estruturas são, portanto, resultado do conflito entre projetos disruptivos e trajetos conservados.
Este é o ponto distintivo fundante da visão aqui proposta: se os projetos disputam o delineamento das estruturas, pois estas funcionam como mediações fundamentais para a ação humana, eles têm grande valor nos âmbitos políticos, econômicos e culturais. Assim, assumir o Design como ação política significa que estruturas humanas ou humanizadas tem agência independente das intenções, isoladas ou conjuntas, que subjazem a sua composição e significado.
Se um ator quer realizar uma ação sobre outro ator, ele precisa utilizar a estrutura existente no sistema, ou transformá-la para comportar sua atuação. Eventualmente, a ação exige uma estrutura que ainda não existe, e então surgem projetos de design para prospectar estruturas novas que se combinam às estruturas atuais. Isto significa que a possibilidade de transformação muitas vezes já está presente e disponível ao redor da estrutura, nas suas margens. As infraestruturas e as metaestruturas são os pontos de alavancagem preferenciais do Design Prospectivo por oferecer um pouco mais de maleabilidade do que a estrutura principal já enrijecida. O cultivo das qualidades relacionais nas infraestruturas e metaestruturas tem o potencial de transformar indiretamente a própria estrutura.
Entende-se que indivíduos, empresas, organizações do Terceiro Setor, órgãos governamentais e quem quer que queira confrontar suas perspectivas de futuro e, através deste confronto, explorar o espaço de possibilidade de transformação, pode atuar na elaboração de projetos prospectivos. Quanto mais diferentes forem as posições destes atores, mais qualidades diferentes serão atribuídas às relações entre eles e as estruturas. Esta multiplicidade de atores define a característica de co-criação consciente da visão prospectiva, que busca a horizontalidade nas relações entre eles, sejam humanos ou não-humanos, no que chamamos Prospecção Coletiva.
Característica fundamental do projeto prospectivo, a co-criação se funda na articulação de práticas, teorias, estratégias e ferramentas de áreas como Engenharias, Arquitetura e Urbanismo, Filosofia, Antropologia e Sociologia, o que implica na expansão do campo de atuação do Design enquanto disciplina compositora do mundo. O paradigma de pesquisa aqui proposto permite a leitura interdisciplinar necessária para problematizar e propor soluções a problemas complexos, com o objetivo de tratar a sustentabilidade nos seus três pilares: ambiental, econômico e social.
A ênfase nas qualidades relacionais colocada pelo Design Prospectivo viabiliza o combate às desigualdades, a promoção de inclusão social e equidade, a redução de disparidades, e a mitigação de impactos ambientais como princípios da área de Arquitetura, Urbanismo e Design, onde se insere o Programa. Como cada uma dessas qualidades relacionais já é cultivada há muito tempo em outras áreas do conhecimento, busca-se a colaboração interdisciplinar e transdisciplinar.
Comprometido com a produção de conhecimento projetual, o Design Prospectivo se desenvolve como uma práxis baseada em projetos prospectivos voltados para infraestruturas e metaestruturas. Enquanto campo prático, consolida as competências de prospeção, antecipação, facilitação, colaboração, articulação, integração e transformação que designers profissionais têm desenvolvido a partir da sua atuação na sociedade nas últimas décadas. Enquanto campo teórico, apresenta uma maneira de pensar e transformar estruturas através de projetos que priorizam qualidades relacionais.
Objetivos
O objetivo geral do Programa de Pós-Graduação em Design Prospectivo e do seu Curso de Mestrado é formar mestres pesquisadores, educadores e profissionais com consciência crítica e criativa capacitados a auxiliar na prospecção de mudanças estruturais na sociedade. Esses mestres devem ser capazes de desenvolver projetos de prospecção e desenvolvimento de tecnologias, metodologias e teorias para antecipar mudanças estruturais. Também devem ser capazes de capturar e lidar com as qualidades relacionais que surgem da multitude de coisas relacionadas, buscando estruturas mais justas, igualitárias, éticas, inclusivas, sustentáveis, resilientes e afetivas. Visando atingir o perfil do egresso estipulado, o objetivo do curso também é prover formação e oportunidades de aprofundamento nas áreas de atuação da pesquisa científica, da docência em ensino superior e da atuação profissional em empresas, poder público e terceiro setor, ambas as três atuações são estratégicas para a consolidação e crescimento do Design Prospectivo.
Pautados pela missão, visão, valores e objetivos, são estabelecidos alguns objetivos específicos:
(1) Desenvolver projetos de pesquisa, ensino e extensão pautados pelos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU e pelos problemas capciosos que emergem dos sistemas sociotécnicos brasileiros;
(2) Desenvolver tecnologias que antecipem mudanças estruturais e que possam ser transferidas e exploradas comercialmente ou comunalmente;
(3) Desenvolver uma compreensão profunda das qualidades relacionais que surgem da interação entre múltiplas entidades, promovendo abordagens de design que buscam estruturas sociais mais justas, igualitárias, éticas, inclusivas, sustentáveis, resilientes e afetivas;
(4) Promover forte integração entre teoria e prática por meio de pesquisas científicas que ocorrem em conjunto com o desenvolvimento de projetos reais de design prospectivo.
(5) Firmar-se como referência local, nacional e internacional de qualidade na formação e criação de conhecimento sobre design prospectivo e projeto de infraestruturas e metaestruturas.
(6) Contribuir para a inserção de designers pesquisadores em projetos multidisciplinares de prospecção de transformações estruturais.
(7) Fortalecer a cooperação Sul-Sul com demais países emergentes, com desafios estruturais similares ao Brasil, onde a expansão da pesquisa e do desenvolvimento de projetos prospectivos pode impactar positivamente em todos.
(8) Auxiliar na redução de assimetrias regionais, assim como a desigualdade de acesso a grupos historicamente oprimidos, no tocante a programas de pós-graduação stricto sensu em Design.
Histórico
O Programa de Pós-Graduação em Design Prospectivo da UTFPR surge como resultado de um processo de amadurecimento institucional, acadêmico e científico desenvolvido principalmente no âmbito do Departamento Acadêmico de Desenho Industrial (DADIN), mas também articulado com docentes de outras áreas e instituições. Sua origem está vinculada à necessidade de verticalizar a formação em Design na UTFPR, fortalecendo a passagem entre graduação, pesquisa, extensão e pós-graduação stricto sensu. Essa demanda era particularmente evidente porque o DADIN já ofertava dois cursos diretamente ligados à área — o Bacharelado em Design e a Tecnologia em Design Gráfico — ambos com entrada regular de estudantes e expressivo número de egressos anuais. Além disso, a própria graduação já vinha incorporando temas próximos ao Design Prospectivo, como design de serviços, experiências, sistemas e a disciplina Introdução ao Design Prospectivo, preparando um ambiente favorável à criação do mestrado.
A proposta também se apoia no Planejamento Estratégico 2016-2030 do DADIN/UTFPR, que define como missão promover a educação em design por meio do ensino, da pesquisa e da extensão, com atenção à sustentabilidade social, cultural, ambiental e econômica. Nesse documento, a criação de um Programa de Pós-Graduação já aparecia como iniciativa prioritária para ampliar a verticalização do ensino em Design na universidade. O planejamento indicava ainda que esse programa deveria abordar temas pouco contemplados por outros cursos stricto sensu da região, acolhendo estudantes e pesquisadores cujos interesses não se encaixavam nas áreas tradicionais do Design.
A partir dessa orientação, um grupo de docentes passou a se articular em torno da criação de uma proposta comum. Esses professores já desenvolviam pesquisas e projetos relacionados à sustentabilidade, justiça social, equidade de gênero, processos participativos, novos materiais, sistemas produtivos, inovação social, educação, cultura e tecnologia. Para se conhecer melhor e encontrar pontos em comum por meio de uma exploração brincante, o professor Frederick van Amstel propôs o uso do método Lego Serious Play para representar seus objetos de pesquisa como metáforas físicas.

Depois de cada investigador ter apresentado o seu objeto, realizámos uma análise convergente coletiva, de baixo para cima, no quadro branco utilizando o pensamento visual característico do Design. Os nomes dos investigadores foram escritos na parte inferior e os seus objetos foram traduzidos do modelo de Lego para palavras no quadro. O objetivo era desenvolver uma nova base comum, ajustando gradualmente os objetos até que convergissem para as linhas de investigação escritas na parte superior.

A convergência entre os investigadores tornou-se gradualmente mais clara através de uma série de outros artefactos visuais. O professor André de Souza Lucca explorou em profundidade o que o design de informação poderia fazer para nos ajudar a definir os nossos novos alicerces comuns. A criação de um diagrama em forma de flor, no qual os nomes dos investigadores aparecem como pétalas e as formas de conhecimento próprias do design como sementes, foi uma conquista significativa. No entanto, este diagrama ainda não transmitia o nível desejado de inovação na investigação de que necessitávamos.

Decidimos reler e debater textos fundamentais da investigação em design, incluindo o artigo de Nigel Cross sobre os modos projetuais de conhecer o mundo, as implicações éticas e disciplinares dos problemas capciosos de Richard Buchanan e a questão das transições trazida por Terry Irwin. Procurávamos identificar o que era essencial na investigação em design, o que faltava e para onde se dirigia esta área.
A partir disso, o programa de Doutoramento em Design de Transições da Carnegie Mellon University, criado por Terry Irwin e colegas, tornou-se uma referência crucial para nós. O conceito de sistemas sociotécnicos nos chamou a atenção no Design de Transições. A professora Fernanda Botter facilitou graficamente a nossa compreensão da perspetiva multinível sobre as transições sociotécnicas e ajudou a nos posicionar nesse âmbito.

O Design de Transição de Irwin abria espaço para o diálogo com as epistemologias do Sul. Naquela época, Boaventura de Sousa Santos havia acabado de lançar O Império Cognitivo, um livro que expande seu trabalho anterior sobre as epistemologias do Sul. Meus colegas se sentiram encorajados por esse conceito, pois validava nossa tentativa de nos mantermos sintonizados com a realidade brasileira. Ao enfrentarmos o desafio de traduzir Design de Transição para o português ("Design de Transições" ou "Design Transicional"), percebemos que o termo não faria sentido em uma nação que não precisa de uma transição para um estilo de vida mais sustentável.
Em 2019, o Brasil já possuía um estilo de vida muito mais sustentável do que os Estados Unidos, onde Terry Irwin propôs o Design de Transições. No Brasil, já tínhamos cidades densas organizadas em torno do transporte público, presença majoritária de energias renováveis na matriz energética, circuitos de economia solidária e muitas outras abordagens que o Design de Transições defendia. Em um momento de epifania anti-imperialista, percebemos que os Estados Unidos deveriam aprender conosco, e não o contrário. Importar e traduzir "Design de Transição" não funcionaria para nós. Decidimos então criar outro termo para transmitir o que estávamos fazendo. Foi assim que surgiu o conceito de "Design Prospectivo".
Nesse momento, Frederick van Amstel construiu no quadro branco um esquema para análise da opressão entre mundos e nações, destacando as epistemologias do Sul e metodologias como o Design Participativo como estratégias para a descolonização da pesquisa em Design, um tema que começava a ganhar força dentro da concepção do Design Prospectivo. Cada pesquisador buscou enquadrar seu objeto de pesquisa neste esquema, reconhecendo as pessoas com quem trabalham dentro de grupos sociais oprimidos.

Após reler e discutir as quatro ordens do design de Buchanan e a estrutura evolutiva de Ceschin e Gaziluzoy, percebemos uma expansão da pesquisa em design, passando de objetos de pequena escala para objetos de maior escala. André Lucca e Cayley Guimarães reuniram nossa reflexão coletiva em um esquema visual semelhante.

Nesse sentido, o programa foi concebido a partir de uma ampliação do campo do Design. Em vez de restringir o projeto à criação de artefatos isolados, como produtos, peças gráficas ou interfaces, o Design Prospectivo se propunha a trabalhar sistemas sociotécnicos.
Essa formulação diferenciava a proposta de outros programas de pós-graduação em Design existentes na região. No Paraná, havia apenas um programa stricto sensu em Design, na UFPR, com área de concentração voltada a Design Gráfico e de Produto. A proposta da UTFPR buscava ocupar outro espaço acadêmico, voltado às relações entre design, sistemas complexos, transições sociotécnicas e transformação estrutural. Essa lacuna se tornava ainda mais relevante diante da expansão dos cursos de graduação em Design no estado e da crescente demanda por docentes, pesquisadores e profissionais capazes de atuar com sustentabilidade, inovação social e visão sistêmica.
Nesse primeiro momento, a área de concentração do programa foi definida como "Design de Tecnologias para Transição" e suas linhas de pesquisa como "Design de Infraestruturas de Transição" e "Design de Cenários de Transição". Embora o programa ainda estivesse definindo o que seria Design Prospectivo, já era necessário separar em duas linhas de pesquisa para cumprir um requisito mínimo de duas linhas de pesquisa estabelecido pela CAPES.
Em 2019, esse grupo de docentes submeteu à CAPES uma primeira proposta de abertura do Programa de Pós-Graduação em Design Prospectivo. A submissão foi orientada pela exigência de que novas propostas de mestrado e doutorado apresentassem caráter inovador, respondessem a necessidades sociais e estivessem conectadas ao foco do programa. Embora a proposta tenha recebido avaliação positiva em diversos aspectos, ela não foi aprovada. Dos quatro critérios avaliados, três foram considerados atendidos: as condições asseguradas pela instituição, a dimensão e o regime de trabalho do corpo docente, e a produtividade docente e consolidação da capacidade de pesquisa. O ponto considerado insuficiente foi a própria proposta do curso, especialmente quanto à definição da área de concentração e das linhas de pesquisa, à presença de informações dispensáveis e à necessidade de detalhar melhor a infraestrutura disponível.
Embora a proposta tenha sido rejeitada, o grupo de docentes continuou determinado a desenvolver o campo do Design Prospectivo. Em 2020, a pandemia COVID-19 estabeleceu a necessidade de trabalhar remotamente. O Grupo de Estudos remoto em Design Prospectivo promoveu encontros abertos em 2020 foi sucedido pelo Seminário de Design Prospectivo em 2021, ambos organizados pelo professor Cayley Guimarães. Com o congelamento de investimentos na pós-graduação entre os anos de 2020 a 2022, a submissão de novos cursos de mestrado ficou suspensa pela CAPES.
Como parte das ações do grupo de estudos, Frederick van Amstel, Cayley Guimarães e Fernanda Botter realizaram o estudo "Prospecting a systemic design space for pandemic responses" sobre as respostas de design dadas à pandemia. Eles classificaram os projetos nas ordens de design de Buchanan e descobriram que faltavam respostas sistêmicas à pandemia. A maior parte das soluções improvisadas focavam apenas em oferecer instruções visuais e equipamentos de segurança, porém, o Design de quarta ordem poderia transformar as estruturas desiguais da sociedade que faziam certas populações estarem mais suscetivas à transmissão do vírus.
Outra iniciativa importante dessa época foi a oficina Prospectina 2050, aproximaram estudantes, docentes e comunidade na prospecção de futuros possíveis, especialmente no contexto educacional da pandemia. Fernanda Botter, Kando Fukushima e Milena Maria Rodege Gogola publicaram um artigo seminal no periódico Estudos em Design sobre a Prospectina intitulado "Prospectando futuros para a educação superior no contexto pós-pandemia COVID-19". Paralelamente, docentes do grupo passaram a ser convidados para eventos nacionais e internacionais, ampliando a visibilidade da abordagem e sua circulação em redes acadêmicas do Brasil, Europa e América Latina.

Refletindo sobre os diálogo, leituras e prospecções, os docentes buscaram não apenas ajustar o texto da APCN, mas também fortalecer efetivamente o campo que sustentava o programa. Destaca-se, nesse período, a publicação do artigo “Design Prospectivo: uma agenda de pesquisa para intervenção projetual em sistemas sociotécnicos”, de Frederick van Amstel, Fernanda Botter e Cayley Guimarães, na revista Estudos em Design em 2022. Esse artigo ajudou a estabelecer os fundamentos teóricos da proposta. Além dele, o corpo docente publicou estudos empíricos relacionados a problemas contemporâneos, como os impactos da pandemia de COVID-19, o trabalho remoto no setor de moda, a educação pós-pandemia, novos materiais sustentáveis, arranjos produtivos, metanarrativas de gênero, representações visuais, trocas culturais e ensino de design.
Quando as condições sanitárias permitiram retornar aos encontros presenciais, em 2023, o grupo de estudos resolveu focar em uma única obra para a leitura aprofundada ao longo de um semestre: Pensando em Sistemas de Donella Meadows. Após discutir criticamente a obra, os docentes chegaram à conclusão de que o pensamento sistêmico apresentado por Meadows era muito reducionista e não dava conta das contradições que enfrentávamos no Sul Global. Com isso, decidimos diminuir o peso do conceito de sistemas das elaborações subsequentes sobre Design Prospectivo.

Em paralelo a esse estudo, entre 2021 e 2022, Geraldo Pinto e Frederick van Amstel ministraram as disciplinas Tópicos Especiais em Tecnologia e Sociedade: Álvaro Vieira Pinto I e II no Programa de Pós-Graduação em Tecnologia e Sociedade (PPGTE). Essas disciplinas trabalharam, dentre outras, com os conceitos de trabalho como produção de existência e de estrutura social como técnica coletiva de distribuição do trabalho. Ao trazer esses dois conceitos para o grupo de estudos em Design Prospectivo, surgiu um novo conceito: a estrutura existencial, sobretudo por meio do diálogo entre Frederick van Amstel e Fernanda Botter.
A partir de 2023, o programa redireciona suas forças para transformar estruturas existenciais, ou seja, estruturas das quais seres humanos dependem para existir aproveitar todas as suas potencialidades de ser. Estruturas existenciais incluem infraestruturas materiais, produtivas, operacionais e organizacionais, mas também metaestruturas simbólicas, ideológicas, culturais e políticas. O objetivo central deste programa de pesquisa passa a ser prospectar mudanças estruturais que favoreçam qualidades relacionais, como sustentabilidade, equidade, liberdade, participação, solidariedade e resiliência. O artigo "Prospective design: A structuralist design aesthetic founded on relational qualities" publicado por Fernanda Botter, Frederick van Amstel, Marco Mazzarotto e Cayley Guimarães na conferência internacional da Design Research Society, realizada em 2024 em Boston, consolidou o conceito de estruturas existenciais na proposta estética do Design Prospectivo.
Esse conceito permitiu também distinguir melhor as duas linhas de pesquisa. "Design de cenários de transição" virou simplesmente "Metaestruturas" enquanto "Design de infraestruturas para transição" virou "Infraestruturas". O processo de redesenho das linhas de pesquisa ocorreu em vários contextos, inclusive com apoio de um novo mapeamento de interesses compartilhados entre docentes, visto que vários novos docentes já haviam ingressado no grupo desde 2019. A área de concentração do programa também deixou de se chamar "Design de Tecnologias para Transição" e passou a assumir diretamente o nome "Design Prospectivo". Essa mudança demonstrou maior maturidade teórica, metodológica e comunicacional, permitindo apresentar o programa de forma mais objetiva, sem perder a complexidade de seu objeto

As contribuições de docentes que já atuavam em outros programas de pós-graduação foram cruciais para a reelaboração da proposta de novo curso (APCN) submetida à CAPES em 2023. Marta Karina Leite trouxe sua experiência no Programa de Pós-Graduação em Design da UFPR, o primeiro do estado do Paraná na subárea de Desenho Industrial da CAPES, enquanto Geraldo Augusto Pinto compartilhou os desafios teóricos e gerenciais do Programa de Pós-Graduação em Tecnologia e Sociedade da mesma UTFPR, vinculado à subárea Interdisciplinar na CAPES. Contar com estes docentes permitiu ao PPGDP antecipar diversas situações e encontrar cursos de ação já testados como eficazes. A proposta de APCN do PPGDP, portanto, inspirou-se nas conquistas e no pioneirismo de ambos os programas.
O corpo docente comprometido com a proposta de APCN inclui 11 professores permanentes e 3 colaboradores, distribuídos entre as duas linhas. Na linha de Infraestruturas, concentraram-se as pesquisas em inovação, sustentabilidade, materiais, sistemas produtivos, construção, resíduos, indústria criativa, design participativo e inclusão. Na linha de Metaestruturas, agruparam-se investigações sobre conhecimento, narrativas, valores culturais, gênero, raça, espacialidades, educação, pensamento crítico e práticas de resistência. Essa diversidade expressava a própria natureza multidisciplinar do programa, reunindo docentes com formação em Design, Comunicação, Arquitetura, Engenharias, Artes e Sociologia.
Além da produção científica, o grupo demonstrava experiência consistente em orientação, pesquisa, extensão e produção técnica. Havia ampla atuação em trabalhos de conclusão de curso, iniciação científica, mestrados, doutorados, publicações em periódicos, capítulos, livros, eventos, serviços técnicos, produtos, aplicativos e patentes. Projetos de extensão como o LADO, o ECOA, o Aproveita, o Núcleo de Design de Animação e o Muvuca demonstravam a capacidade do grupo de articular pesquisa e prática em parceria com comunidades, organizações sociais e instituições públicas ou privadas.
Em fevereiro de 2025, Marco Mazzarotto facilitou o processo de prospecção da identidade visual do PPGDP junto às participantes do projeto de extensão Agência Agência. O processo de prospecção inicial foi documentado, refletido e publicado no X Simpósio de Design Sustentável como "Design em Corpo Coletivo: jogos participativos para ressensibilizar o projetar". O artigo destacou o papel do corpo na prospecção coletiva.
Mantendo a tradição de prospecção coletiva, em outubro de 2025, Frederick van Amstel facilitou uma oficina de planejamento estratégico com Lego Serious Play para mapear os interesses e as pessoas e instituições interessadas no programa. A oficina contou com a participação de docentes e discentes e resultou em um espelho geral do programa, crucial para o relatório de autoavaliação dos primeiros seis meses de abertura oficial do programa.

A estudante Polyana Andrade Tavares tomou a iniciativa de analizar os dados coletados durante a oficina e cruzar com a pesquisa filosófica sobre o conceito de amanualidade de Álvaro Vieira Pinto realizada pelos professores Rodrigo Gonzatto e Frederick van Amstel. O resultado da análise foi publicado no congresso internacional da Design Research Society em Edinburgo, Escócia em 2026 sob o título "Collective handiness in prospective design".
A história do PPGDP segue sendo feita por corpos coletivos que se descobrem cada vez mais consciente de si e para si, se desenvolvendo a partir de sua amanualidade e das motivações compartilhadas.


