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“Mesmo que não me queiram, eu preciso estar aqui”

“Mesmo que não me queiram, eu preciso estar aqui”

Publicado 4/8/2024, 4:15:15 PM, última modificação 4/8/2024, 4:46:44 PM
Quadro “Mulheres na Pesquisa” traça o perfil de Amanda Crispim, professora que estuda escrevivências negro-femininas

“Tenho várias conquistas na minha trajetória acadêmica, mas acho que sem dúvida a que mais me marcou foi quando eu defendi o meu doutorado (...) Sou cria da periferia, sempre tivemos muitas dificuldades na vida e a minha mãe sempre foi uma mulher de muita visão, no sentido de que ela sempre entendia que, para que eu pudesse mudar a minha realidade, eu teria que ter acesso à educação", afirma Amanda (Foto: Arquivo pessoal).

Amanda, do latim “amare”, significa amar. E de fato é um nome que combina perfeitamente com a professora de Letras e pesquisadora da UTFPR Curitiba. Em 2008 amou Gizêlda, primeira docente negra que conheceu na Universidade, no início da sua trajetória acadêmica. Em seguida, amou o projeto de pesquisa que a professora lhe apresentou e, junto dele, a literatura produzida por mulheres negras. Dali em diante, amou aquela que, talvez, seja uma das pessoas mais importantes de sua vida: Carolina Maria de Jesus. Desse encontro, Amanda encontrou um propósito. Iria pesquisar a escritora e seu trabalho e nenhum obstáculo foi capaz de pará-la.

O caminho não foi fácil, mas a professora consegue amar até seus desafios mais complicados: a aposentadoria de sua querida Gizêlda, a escassez de material sobre Carolina, os trancos da carreira acadêmica para uma mulher negra e a falta de identificação com a Universidade em um primeiro momento. No entanto, ela persistiu. Havia amor demais envolvido na pesquisa e um desejo inesgotável de aprender. “Pesquisador é isso, pesquisador é insistente”, ela define.

Amanda realmente insistiu. E ainda insiste. Ocupar o espaço universitário não é fácil, especialmente para uma mulher negra com um tema de pesquisa que também é vítima dos mesmos preconceitos enfrentados pela docente. Ela acaba obrigada a forjar com o dobro de esforço seu caminho, o que torna sua presença ainda mais importante.

“O que mudou, na verdade, foi a minha percepção em relação a esse ambiente. Porque no início, quando eu era uma jovem graduanda, iniciando as minhas pesquisas, eu tinha o sentimento de que eu tinha que cair fora. Já que esse espaço não é para mim, eu tenho que cair fora. Hoje, tenho o pensamento de que eu preciso realmente ocupar e tentar transformar, mesmo que não me queiram, eu preciso estar aqui. Isso é um processo violento, que nos adoece, porém é necessário”, define Amanda.

Para enfrentar esse desafio, a professora ama e é amada por outras pesquisadoras negras em um processo de aquilombamento. Essa rede de apoio a ajudou a seguir com sua pesquisa sobre escrevivências negro-femininas, especialmente Carolina Maria de Jesus. Esse é um conceito chave para os estudos de Amanda e que também diz respeito às suas próprias experiências. Criado pela crítica literária Conceição Evarista, “escrevivência” é a escrita marcada pela vivência de quem escreve o texto. “É um conceito que fala de coletividade”, explica a professora.

Fica claro, então, que sua pesquisa diz muito sobre a sua própria vida e o quanto o coletivo ajudou Amanda a insistir na resistência. “Tenho várias conquistas na minha trajetória acadêmica, mas acho que sem dúvida a que mais me marcou foi quando eu defendi o meu doutorado (...) Sou cria da periferia, sempre tivemos muitas dificuldades na vida e a minha mãe sempre foi uma mulher de muita visão, no sentido de que ela sempre entendia que, para que eu pudesse mudar a minha realidade, eu teria que ter acesso à educação. (...) Quando eu recebi o título de doutora e minha mãe pode ver, aquilo foi muito emocionante, pois foi uma luta de anos para ela, abrindo mão de muitas coisas, (...) eu senti que era uma vitória de todas as minhas ancestrais, de todas as mulheres negras da minha família e até das que não faziam parte dela”.

Ouso dizer, portanto, que Amanda é mais que simplesmente amar. Amanda é um amor insistente, obstinado e pleno, do tipo que o mundo precisa com urgência e ela aconselha com segurança: se não te transforma, não tem sentido persistir nisso.

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